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Paul Virilio et "La Bombe Informatique"

Autor original: Graciela Baroni Selaimen

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Debates
Paul Virilio
Urbanista e filósofo ao mesmo tempo, o francês Paul Virilio, que pertence Maison des Sciences de l'Homme, na França, escreveu até o momento vários livros concernindo o desenvolvimento das tecnologias e seu impacto na vida do homem em quase todas as áreas. Por causa de sua abordagem nem favorável nem eufórica sobre o futuro de nosso planeta, Virilio foi classificado um pouco ao lado dos "pessimistas" pelas mídias, o que recusou vivamente nesta entrevista concedida de Paris ao Estadão por telefone. Segundo o filósofo, para analisar é preciso ser realista. São os estragos da globalização e os problemas trazidos pela automação o assunto predominante de uma antologia de artigos seus, publicados num livro intitulado A bomba informática (1998). O livro acaba de ser lançado no Brasil (Editora Estação Liberdade) e constitui também o tema desta entrevista.

Estadão - Em seu livro, A bomba informática (Estação Liberdade, trad. de Luciano Vieira Machado, 142 págs., 1999), o senhor diz que a Internet é ao mesmo tempo a melhor e a pior coisa do mundo. Eu pediria que precisasse um pouco em que medida ela é a melhor e como pode representar um risco.


Virilio - Porque ela é a comunicação. Faço referência explicitamente a Esopo, um personagem mitológico. Pergunta-se a Esopo qual é a melhor das coisas e Esopo mostra sua língua, dizendo: "é a língua a melhor das coisas". É, pois, a comunicação. E perguntam-lhe em seguida qual era a pior das coisas. E ele mostra de novo a língua dizendo: "é a língua". A comunicação é obrigatoriamente a pior e a melhor das coisas porque é o veículo da língua e da informação, então o pior e o melhor. E como a Internet é um aparelho de comunicação global, que visa ser global, a ameaça dessa rede é comparável à ameaça de uma comunicação inter-lingüística.


Estadão - O senhor também observou que o homem do século XX é um pouco o da ilusão ótica, não apenas o da imagem. Como o senhor vê o destino desse homem, isto é, do homem do próximo século?


Virilio - É muito importante. Falou-se muito nos anos 70, que vivíamos na civilização da imagem. Mas eu acho que vivemos na civilização da ótica, isto é, no desenvolvimento da perfeição do mundo através das mídias e através das óticas cada vez mais sofisticadas. Vejamos o que está acontecendo agora... Passamos da ótica analógica ao sinal numérico. Por outro lado a lógica tem por função simplificar, ou seja, aumentar seu campo de perfeição. Quando queremos ver, queremos ver cada vez mais, há uma amplificação que se desenvolve hoje, em escala mundial. Há uma grande ótica planetária, uma ótica não ótica, que vai modificar as relações humanas, políticas, sociais, econômicas e, é claro, não é apenas a televisão, são os sistemas de transmissão por satélites, as capacidades dos satélites espiões, das tecnologias militares de controlar incessantemente os territórios e a ação dos homens nas cidades através das câmeras. Vemos que é um fenômeno de amplificação ótica que no século XXI modificará totalmente as relações no mundo. As sociedades antigas tinham uma visão estreita que era ligada à fraqueza do campo de visão. Nossa relação com o mundo está ligada a nossa visão de mundo. Por isso a ecologia das imagens está sendo revolucionada pela grande ótica. Uma imagem vale mais que um longo discurso, tem um poder de convicção que é o propósito da ótica. 60% da informação nos vêm pelos olhos.


Estadão - Considerando-se os problemas causados pelos excessos de utilização da Internet, e podemos falar de problemas ora físicos ora psíquicos, o senhor mencionou uma certa "contaminação técnica". O sr. considera que se trata de uma doença fatal? E nesse sentido, o homem de nosso século estaria sem cessar em busca da morte (também há o exemplo dos esportes radicais, etc.)?


Virilio - Há em todo caso uma ameaça de desrealização, o que quer dizer que de tanto viver dentro das telecomunicações, através do mundo virtual da Internet, corre-se o risco de desapropriar-se do mundo real. Há já nas clínicas pessoas que não podem mais se separar da Internet, ou das tecnologias virtuais, como é o caso da droga. É um fenômeno de familiaridade com o virtual que tira o indivíduo da realidade. Já há casos patológicos.


Estadão - É uma espécie de suicídio?


Virilio - Vejo aí duas coisas. De um lado, há esse aspecto de perda do real, que é patológico e explica a droga. A multiplicação dos alucinógenos é um fenômeno de busca de desrealização. Ora, hoje tem-se uma droga eletrônica, então o reforço dessa necessidade é ainda aumentado ao lado da droga química. Efetivamente esta é uma explicação sobre o delírio de nossa época, a busca de escapar do real. Mas o outro aspecto suicida que comento são os esportes radicais. Os indivíduos agora não procuram mais praticar um esporte para desenvolver seus corpos, mas para tentar a morte. Para brincar com a morte como no circo romano. E há aí uma patologia mascarada.


Estadão - Um outro problema concernindo aos excessos da técnica é com relação à perda do trabalho. De acordo com seus artigos, a perda de um lugar e principalmente de um horário de trabalho pode ser catastrófica, levando o homem a uma espécie de escravidão. Não sei se o senhor conhece o trabalho do sociólogo italiano Domenico de Masi (A emoção e a regra) em que ele supõe que o mundo moderno do próximo século será o mundo do "tempo livre" porque perderemos muito menos tempo para realizar certos trabalhos. O Sr. concorda com isso e acha que haverá mais lazer no futuro?


Virilio - Acho que é uma análise que provavelmente data dos anos 60. É uma análise otimista e eufórica sobre o tempo livre e a cultura. É uma visão que poupa o drama que está se preparando entre nômades e sedentários. Dou um exemplo. No século XIX, a oposição social era entre o campesinato e proletariado. O campesinato ia tornar-se proletariado nas cidades. No século XX, a oposição social é entre a periferia e a cidade. E o que se prepara para o próximo século é novamente a oposição entre os nômades e os sedentários. Os que em nenhum lugar estão em casa e os que estão em casa em qualquer lugar, graças ao telefone celular, ao computador etc. Acho que a "desendetarização" de uma parte cada vez mais importante da população não levará ao lazer, mas à guerra civil. Temos exemplos disso não só em São Paulo, mas também em Paris. Um homem é sedentário em três elementos: na família, se a família dura, quando a família desmorona ele se torna nômade, são as crianças abandonadas de São Paulo e outros lugares; no trabalho, porque ele tem um contrato por tempo indeterminado e está seguro de seu emprego, e claro, em sua casa na cidade. Há hoje três estruturas: a família, o trabalho e a cidade que expulsam o indivíduo. Por quê? Porque ele não tem mais suas competências. Em breve, para ter um trabalho permanente será preciso ser Prêmio Nobel... Então o problema para mim não é o do lazer, é o da violência que se prepara para as pessoas que não terão mais trabalho. Vai recomeçar aquela oposição que estava na origem, bem antes da luta de classes. É a primeira oposição histórica.


Estadão - Isso lembra um pouco as idéias do escritor Michel Tournier. Ele diz que os sedentários vão massacrar os nômades, como Caim massacrara seu irmão Abel...


Virilio - Totalmente. Sou urbanista. Se falo de sedentariedade, é em conhecimento de causa, meu trabalho é o da "sedentarização". Acredito na guerra civil de uma natureza ligada à globalização, à seleção de alguns indivíduos, e depois há essa imagem das pessoas abandonadas porque são inúteis, inúteis como produtores diante da automação das máquinas. Inúteis como procriadores porque há a inseminação artificial e inúteis até como soldados, veja-se o que acaba de acontecer na guerra de Kosovo... Não se abateu um único soldado, nem há necessidade de soldados, bastam os mísseis, aviões. Há aí uma maneira de tornar o homem inútil e abandoná-lo e de fazer dele um homem ocioso. E um homem ocioso é um homem que se torna violento. As férias prolongadas? Isso é um sonho dos sociólogos.


Estadão - O sr. não acha de forma alguma que toda essa técnica possa levar a uma espécie de economia do tempo?


Virilio - O tempo não é alguma coisa que se mede com um pêndulo. O tempo é alguma coisa que se constrói juntos, numa família, numa tribo, numa região. O tempo é ecossistema. O tempo é um espaço de tempo, não se pode falar do tempo como emprego do tempo sem falar do emprego do espaço, isto é, a socialidade que envolve essa temporalidade. Ora, o tempo ganho, o tempo rápido, o tempo do live, o tempo efêmero, o tempo das cotações não é um tempo que socializa, é um tempo de ruptura, "dessocializante". Não é um tempo longo de composição, de concentração, de reflexão, é um tempo de reflexo e de reação que se torna cada vez mais violento. A velocidade é uma violência.


Estadão - O senhor demonstra muito bem a imaturidade do homem atual. Com relação à sexualidade também, o sr. fala da pornografia que se torna cada vez mais um produto, um "serviço". O sr. acha que a pornografia tão propagada na Internet é um exemplo da imaturidade do homem moderno, ainda que sempre tenha existido?


Virilio - Digamos que pornografia e violência são as duas faces de um mesmo movimento. Quer dizer um movimento de excitação. Ora, um homem na força da idade não tem necessidade de excitantes. Quem precisa deles é o adolescente ou o velho. Aquele que não tem mais os recursos da idade adulta, ou aquele que não os tem ainda. Esses excitantes de toda natureza pornográfica ou eletrônica ou super violentos, são os sinais da decrepitude, da senilidade de um lado, da infantilidade do outro. É a prova que nossa sociedade não é uma sociedade madura, mas uma sociedade que se volta para as faltas. No terreno da vitalidade animal, como da vitalidade intelectual, aliás.


Estadão - Aonde o sr. acha que a pornografia pode levar a sexualidade? A sexualidade que mudou muito neste século teria um destino funesto, como uma espécie de mistificação?


Virilio - A partir do momento em que se destaca a sexualidade da procriação, alguma coisa como um jogo começa a instalar-se. A sexualidade não é mais o que faz a história na demografia através do casal, um casal sólido ou durável, é apenas um jogo como outro qualquer. E tal jogo pode muito bem ser automatizado. Por exemplo, a ciber-sexualidade, ao lado do Viagra, os excitantes eletrônicos acabam por suprir o encontro real dos indivíduos. Há também um empobrecimento e uma perda da grandeza da sexualidade. Tomo um exemplo: os cavalos. Hoje não há mais cavalos nas ruas... Onde estão os cavalos? Nos hipódromos correndo. Eles se tornaram brinquedos mesmo tendo feito a História. Os cavalos foram a potência das gerações passadas. Os cavalos fizeram a História até a cavalaria romana ou medieval. O homem, o cavaleiro, era um grande homem. O cavalo agora é alimento em certos açougues, vamos vê-lo rodar num hipódromo, ele não é mais que um brinquedo. É a desqualificação de um animal, amanhã arrisca-se que essa desqualificação atinja todos os homens, que são também animais.


Estadão - Fala-se muito numa globalização da pobreza. O que o senhor acha disso?


Virilio - Que infelizmente é completamente verdadeiro. Acho que cada vez que há movimentos de concentração como é o caso na área das telecomunicações, há empobrecimento. É bastante lógico. O dinheiro se concentra em empresas bem pouco numerosas, monopolistas, a divisão do valor se rarefaz. E principalmente a automação que permite substituir o homem em quase todas as áreas. É forçosamente um movimento para a inutilidade do homem e por isso para uma pobreza essencial, como a da África - profética desse infortúnio... Na minha opinião a África é uma espécie de maquete, o modelo do futuro se não nos revoltarmos. É preciso civilizar a técnica, que é uma barbárie.


Estadão - E como seria essa "civilização" da técnica?


Virilio - Seria primeiro o partilhar do conhecimento técnico. No momento não há democracia da cultura técnica. Mesmo as pessoas muito cultas têm pouco conhecimento do desenvolvimento da técnica há dois séculos. Ora, é uma revolução considerável. A revolução científica foi favorecida pelas técnicas.


Estadão - Ainda sobre o espaço, o sr. mencionou que o homem de outrora sonhava com um espaço que não era o seu, através das imagens, das descrições e até das artes plásticas. O senhor acha que o homem hoje mudou seus sonhos por meio da Internet? O Senhor acha que o espaço alheio perdeu um pouco de sua idealização, sua referência de exotismo pelo fato de ser veiculado pelos computadores?


Virilio - A rapidez das mudanças mudou o mundo, o que não é apenas espaço. É tempo também. Há uma perda da extensão... Há um enclausuramento que já atinge as pessoas. Acho que em algumas gerações as capacidades de telecomunicação serão tantas que as pessoas se sentirão fechadas no mundo, ele se tornará muito pequeno para o homem.


Estadão - O sr. acha que as imagens exóticas ou idílicas de uma país para outro estão se perdendo?


Virilio - Acho que o que dá um sentido a um meio é a sua cultura e sua poesia. Acho que ainda temos uma cultura local, nacional e as culturas se comunicam entre si. Os grandes escritores e poetas nos permitem estimar através da literatura, do cinema da música a qualidade de uma parte do mundo. Acho então que surge, ainda muito fraca, uma espécie de poesia mundo. A poesia não é mais simplesmente localizada. Ao lado da economia mundial, dos grandes mercados, há de instalar-se uma "poesia mundo".


Estadão - No domínio das artes, o senhor faz uma ressalva ao teatro, única arte que conserva a possibilidade de existir em tempo real porque tudo se passa apenas no tempo da cena. Qual é então o destino das artes em geral?


Virilio - O teatro e a dança são as duas linhas de resistência à virtualização. Não há globalização sem virtualização. O teatro e a dança têm necessidade de apresentar o corpo. Então são as artes do corpo por excelência. É preciso preservá-las, se as deixarmos desaparecer na virtualização se não preservarmos os corpos de atores e dançarinos, provaremos que as novas tecnologias são exterminadoras dos corpos não apenas através do desemprego, da miséria, mas também da referência à corporalidade, isto é, à própria teatralidade. Tudo vai se tornar signo, impulsão eletrônica. Há um perigo de "descorporização", mais que de desrealização. Isso é patológico, não é cultura. Quanto às outras artes, vejamos o exemplo da última Bienal de Veneza: não havia nem escultura nem pintura. Havia apenas instalações de vídeos, performances, o que chamei de "a arte do motor" (A arte do motor, trad. de Paulo Roberto Pires, Estação Liberdade,1996, 134 págs.). A arte do motor elimina a arte não motorizada. O grande problema é o da eliminação. Se as artes eletrônicas e as outras coexistissem, muito bem. Mas infelizmente há uma espécie de seleção artificial que faz com que as novas tecnologias eliminem as outras. É o caso da navegação: já não se vai ao Brasil de navio, apenas de avião.


Estadão - No Brasil sua obra é muito apreciada - basta ver a quantidade de traduções. Mas o senhor é classificado como pessimista. O sr. se considera um pessimista?


Virilio - De jeito nenhum! Sou um analista. Faço crítica, não me acho um pessimista. É uma coisa das mídias dizer que é pessimismo etc. Mas para analisar, é preciso ser realista.

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