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Dragagem do rio Tapajós não será realizada

Fonte: Tapajós de Fato

Daniel Vinagre – 24-07-2026

Lideranças indígenas do Tapajós afirmaram ter recebido do presidente Lula (PT) a garantia de que não será realizada a obra de dragagem do rio Tapajós anunciada em junho. O compromisso teria sido firmado durante uma reunião de mais de quatro horas realizada nesta quinta-feira (23), em Brasília. Na ocasião, as lideranças apresentaram uma carta assinada por cerca de 40 entidades, que foi recebida pelos representantes do governo e pelo presidente. 

Participaram do encontro lideranças dos territórios e entidades representativas indígenas, além de organizações e do Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça Socioambiental (GT Infra). Também estiveram acompanhando o diálogo representantes de vários ministérios, entre eles o Ministério de Minas e Energia (MME)  dos Transportes, MPor (Portos e Aeroportos), Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico).

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Após a reunião, as lideranças classificaram o resultado como uma vitória dos povos indígenas e das comunidades que dependem do rio. Segundo os representantes, o movimento chegou ao encontro sem intenção de negociar a realização da obra, mas para defender a suspensão definitiva da dragagem.

Viemos aqui dizer não à dragagem. Nós não viemos negociar, nós viemos garantir e conseguimos garantir o direito dos nossos rios, garantir o nosso rio livre de dragagem”, afirmaram as lideranças em vídeo divulgado após o encontro.

Ainda de acordo com os participantes, Lula teria confirmado que a dragagem não será realizada no Tapajós. 

Acabamos de sair de mais de quatro horas de reunião com o presidente Lula, com uma grande vitória aos povos indígenas do Tapajós. O presidente confirma que não terá dragagem no rio Tapajós”, declarou Auricélia Arapium, liderança indígena do Baixo Tapajós.

Vitória construída durante mobilização no Tapajós

Os representantes relacionaram o resultado da reunião à mobilização realizada no início deste ano, quando indígenas e integrantes de movimentos sociais ocuparam as instalações da Cargill, em Santarém, em protesto contra a dragagem e a transformação dos rios amazônicos em corredores para o escoamento de commodities. A mobilização durou mais de um mês e conseguiu a revogação do decreto presidencial nº12600/2025

Segundo as lideranças, a decisão anunciada durante a reunião é fruto da articulação coletiva dos povos indígenas, comunidades tradicionais e organizações que atuam na defesa do Tapajós.

Isso é uma grande vitória daqueles que estiveram resistindo na luta também no início do ano, na ocupação da Cargill. É uma grande vitória do coletivo que conquistamos nesta articulação e nesta reunião com o presidente Lula”, afirmaram. A reunião foi articulada pelo Ministério dos Povos Indígenas.

As lideranças também rejeitaram o argumento de que a dragagem seria necessária para evitar o desabastecimento de alimentos, medicamentos e combustíveis durante os períodos de seca. Para o movimento, a intervenção no leito do Tapajós atenderia principalmente aos interesses das empresas do agronegócio que utilizam o rio para transportar soja, milho e outros produtos destinados à exportação.

O agronegócio queria colocar a culpa na gente, dizendo que vai faltar remédio, combustível e alimentos. Nós falamos que não, porque o agronegócio quer usar o El Niño para dragar e destruir o nosso rio”, disseram.
 

O rio não é apenas dos povos indígenas”

Durante a manifestação após o encontro, os representantes ressaltaram que os possíveis impactos da dragagem não se restringiriam aos territórios indígenas.

O rio não é só dos povos indígenas. O rio é também dos beiradeiros, dos quilombolas, dos pescadores e do turismo que existe naquela região”, destacaram.

As lideranças afirmaram que o Tapajós é fonte de alimentação, renda, transporte, cultura e espiritualidade para diferentes povos e comunidades. Para elas, qualquer intervenção no rio precisa considerar a relação histórica e ancestral mantida com o território.

Nós dissemos não à dragagem porque ela vai prejudicar muitas vidas. Necessitamos do rio Tapajós para sobreviver. Ele é fonte de renda e faz parte da ancestralidade da nossa vida e dos nossos antepassados”, declararam.

Carta pede proteção dos rios amazônicos

Durante a reunião, as lideranças entregaram ao presidente Lula uma carta assinada por dezenas de organizações indígenas, movimentos sociais, entidades ambientalistas, associações comunitárias e instituições ligadas à defesa dos direitos humanos e socioambientais.

O documento está em anexo em PDF.

O documento, intitulado “Salvar os rios da Amazônia: ameaças do Arco Norte, soberania alimentar e o futuro do Brasil”, pede a suspensão de qualquer iniciativa de dragagem sem licenciamento ambiental e sem Consulta Livre, Prévia e Informada aos povos e comunidades afetados. A carta afirma que os corredores logísticos do chamado Arco Norte transformam rios e florestas em rotas de exportação, provocando impactos sobre povos indígenas, ribeirinhos, pescadores e comunidades locais.

As organizações também criticam a autorização concedida pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará (Semas) para intervenções no Tapajós e afirmam que as principais beneficiadas seriam grandes empresas que atuam no transporte e na comercialização de commodities agrícolas.

O documento ainda cobra a elaboração de um plano regional de adaptação e mitigação climática para enfrentar secas severas e outros eventos extremos, com participação direta das populações que vivem nos territórios. “Em uma situação de seca extrema, as dragagens não devem priorizar os rios para os comboios de soja. É necessária a criação de um plano de adaptação e mitigação climática regional, com ações voltadas às populações mais afetadas e com a participação destas”, diz um trecho da carta.
 


 

GT Infra apresentou estudos sobre impactos

Representantes do GT Infra também participaram da reunião e apresentaram informações técnicas sobre os impactos de projetos de hidrovias e outros empreendimentos de infraestrutura planejados para a Amazônia.

Renata Utsunomiya, analista da organização, explicou que o grupo levou ao encontro elementos de notas técnicas sobre o Arco Norte, os problemas relacionados ao licenciamento ambiental e as experiências de dragagem já realizadas em rios como o Madeira. Segundo ela, diante do avanço das mudanças climáticas e da ocorrência de secas extremas, as políticas públicas devem priorizar as populações mais vulneráveis, e não apresentar soluções voltadas aos grupos que já possuem poder econômico.

As comunidades precisam ser ouvidas para iniciar um plano regional, construído a partir dos territórios, para enfrentar esses extremos climáticos. Não podemos ter respostas prontas que acabam beneficiando um grupo específico que já tem poder econômico”, afirmou. Além da suspensão das dragagens sem licenciamento, a carta entregue a Lula reivindica o cancelamento da Ferrogrão, o fim do projeto de derrocagem do Pedral do Lourenção, no rio Tocantins, e medidas para conter a expansão de portos privados na Amazônia.

O documento também pede mais investimentos em agricultura familiar, agroecologia, estoques públicos de alimentos, cozinhas solidárias, proteção territorial e demarcação de terras indígenas. Para as organizações, combater a crise climática e garantir a soberania alimentar exige uma mudança no atual modelo de infraestrutura destinado à exportação de commodities.

Menos logística da morte e mais logística da vida”, resume a carta.
 

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