Cinema de resistência busca influenciar na construção de valores da sociedade


O cinema é um grande conhecido da sociedade como forma de lazer, arte e cultura. O que muitos talvez não se deem conta é que a Sétima Arte sempre foi uma influenciadora de costumes e valores da sociedade.

“Temos que ter consciência de que o entretenimento, sem que a gente perceba, está nos incutindo valores”. A afirmação é da cineasta paulistana Tata Amaral, no debate “Cinema e Culturas de Resistências”, que aconteceu na noite do dia 19 de janeiro, durante o Fórum Social das Resistências, em Porto Alegre.

Como exemplo, ela fala que nos cinemas de ação norte-americanos, em 1990, os personagens negros sempre eram os primeiros a morrer e isso certamente reforçou o racismo ainda presente na sociedade. “É o cinema de entretenimento nos fazendo crer que as pessoas negras estão lá pra morrer”, continua.

De acordo com Tata, há um esforço para apagar a história de classes mais baixas através do poder da narrativa, fazendo com que elas sejam menos valorizadas e aceitem isso como sendo verdadeiro. “A narrativa é uma questão de lugar, de poder. Por isso certas famílias são nobres, têm direto e outras não. Porque têm história”, declara.

Resistência

O diretor de cinema Joel Zito de Araújo destaca o papel do cinema de resistência para a superação das narrativas tradicionais, em especial das históricas desigualdades de raça no brasil. De acordo com informações do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), de 2002 a 2014, 84% dos/das cineastas eram homens brancos, 14% eram mulheres brancas e apenas 2% eram homens negros, não existindo nenhuma mulher negra.

“A invisibilidade do negro é fruto da permanência de uma mentalidade colonial. Um desejo do Brasil colônia de branquear esse país. Esse desejo se espelhou nas artes, numa ideia estética de desejo de branqueamento”, diz ele destacando ainda que o negro e o índio sempre entram na cinematografia como representação da subalternidade e da inferioridade social.

“Nós que produzimos cultura, produzimos imagem, temos que rever nossa deformação colonial. Nosso imaginário foi fundado em cima da ideia de que somos uma democracia racial, portanto essa questão é minoritária. E estabelecer como compromisso a incorporação de atores negros, a promoção e possibilidade de emergência de uma geração nova de diretores e diretoras negras – que, aliás, são hiper guerreiras”, completa.

Tata Amaral corrobora o pensamento de Joel: “A resistência passa pela consciência e passa pelo domínio da história. Não existe uma narrativa sobre o movimento operário no Brasil, por exemplo”.

Sílvio Tendler se lembra do início da sua trajetória no cinema ter coincidido com o início da ditadura militar, em 1964. “Eu estava no cinema no dia que o golpe foi dado. A classe média comemorava com lençóis brancos enquanto os porteiros todos estavam de cabeça baixa, procurando no rádio notícias de focos de resistência. Ali eu soube quem havia ganhado aquele golpe”, afirma.

O cineasta ressalta também o papel de resgatar histórias que os filmes podem ter, contribuindo para novas visões a respeito da nossa própria história. Por exemplo, ele lembra que, durante a ditadura, além de políticos, sindicalistas e militantes de esquerda, houve militares cassados por serem contrários ao golpe, mas que pouca gente sabia ou sabe: “Eu fiz um filme sobre isso. Contando essas histórias a gente reconstrói a história do Brasil. Pra mim, o cinema tem essa importância e esse significado de resistência”.

Democratização e novas narrativas

Com a tecnologia, a cineasta Eliane Caffé diz que muita gente hoje tem à disposição ferramentas para construção de novas formas de contar a história. “A mudança tecnológica levou equipamentos para a multidão, que está criando nos diversos seguimentos, no Youtube, nos coletivos. A presença do negro está se dando de outra maneira”, afirma. “A gente fazer com que essas singularidades tão ricas possam convergir numa direção de fazer um projeto de bem estar social é o grande desafio”, analisa.

Ela vê de forma positiva este movimento e finaliza: “Com a sofisticação dos processos de produção, a tecnologia, o conhecimento científico, os intelectuais, os afetos, toda a produção intelectual esta ganhando hoje um valor que nunca teve. Creio que o cinema, como obra coletiva, tem um potencial muito forte”.

Fonte: Observatório da Sociedade Civil