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Atualizado: 1 dia 6 horas atrás

Banco Africano de Desenvolvimento planeja um continente autossuficiente, integrado e industrializado

seg, 16/09/2019 - 12:24

JOANESBURGO, África do Sul / BULAWAYO, Zimbábue, 16 de setembro de 2019 (IPS) – Arama Sire Camara, uma vendedora de frutas e legumes da província de Kindia, a cerca de 135 quilômetros de Conakry, capital da Guiné, sente-se mais segura durante a noite graças ao Projeto de Eletrificação Rural, financiado por um investimento de US$ 21 milhões do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD). “A iluminação na estrada à noite e nos nossos produtos significa que estamos mais seguros, especialmente com todos os carros na estrada. Podemos trabalhar por mais tempo após o anoitecer, e assim produzir mais”, contou.

Shuaibu Yusuf, um agricultor da Nigéria, agora pode pagar não apenas pelos alimentos para sua família, graças aos seus altos rendimentos resultantes do fertilizante de alta qualidade que ele é capaz de obter por meio do programa Feed Africa do BAD, mas também pode pagar os gastos com a educação dos filhos e as contas médicas de sua família.

Na província de Limpopo, na África do Sul, Sarina Malatji, agora com 39 anos e mãe de três filhos, cresceu em uma área onde o acesso à educação era limitado. Mas – graças ao investimento do BAD na Iniciativa de Liderança Medupi e na Academia de Empreiteiros da concessionária estatal Eskom – sua vida agora está muito longe daquela de sua infância. Atualmente, ela é dona de seu próprio negócio de limpeza, o Green Dot, que emprega 115 pessoas na usina de Medupi, um dos maiores projetos de energia do país. Ela diz que as habilidades que aprendeu com a iniciativa de liderança ajudaram-na a expandir seus negócios.

Essas são as histórias de apenas algumas pessoas que foram beneficiárias de investimentos realizados pelo BAD em todo o continente. Entre eles, o apoio à construção de uma linha de transmissão de energia de 563 quilômetros em Moçambique, como parte de um compromisso de ajudar na recuperação após a passagem do ciclone Idai por meio da restauração de meios de subsistência e infraestrutura; um acordo com a Somália de doação de US$ 28,8 milhões para projetos de estradas e água; a assinatura com a União Africana de uma doação de US$ 4,8 milhões para um secretariado continental de livre comércio; e o compromisso de reunir seus recursos com outras partes interessadas para combater a insegurança alimentar no continente.

O BAD registrou uma pegada enorme em termos de desenvolvimento. No ano passado, seu programa Global Benchmark lançou com sucesso duas grandes emissões de benchmark global no mercado de dólares de US$ 2 bilhões cada e um título de dez anos de 1,25 bilhão de euros. “A África não vai se desenvolver com a ajuda, mas por meio da disciplina dos investimentos”, pontuou o presidente do BAD, Akinwumi Adesina, observando que o banco e os parceiros lançaram o Fórum de Investimento na África em 2018, que levantou US$ 38,7 bilhões em acordos de investimento.

Com o encerramento da 20ª reunião anual das principais instituições financeiras do mundo, na semana passada, na sede do BAD em Abidjan, Costa do Marfim, estão em andamento planos para um novo impulso ao desenvolvimento da África, uma vez que o banco pediu um aumento geral de capital dos acionistas. O BAD está comprometido em ajudar a África a explorar seu potencial de ser um destino competitivo de investimentos globais, de acordo com seu vice-presidente sênior, Charles Boamah, que citou conversas sobre o aumento geral de capital, afirmando que “esse é um ano crucial, um ano em que decisões muito, muito importantes estão sendo tomadas sobre que tipo de banco queremos ter nos próximos 20 anos”.

No início deste ano, o Canadá comprometeu US$ 1,1 bilhão em capital exigível temporário para apoiar o BAD e também instou outros países membros com classificação AAA a se unirem ao Canadá no apoio ao banco. Na ocasião, Adesina recebeu com satisfação o anúncio, dizendo que era um “grande impulso”. Ele indicou que permitiria ao banco “fortalecer sua classificação AAA e aumentar os empréstimos para os países membros enquanto as discussões estão em andamento entre todos os acionistas para um aumento geral de capital”. O Canadá é membro do BAD desde 1983 e é o quarto maior acionista entre seus países membros não regionais.

Adesina estava no Japão no final de agosto para participar da Conferência Internacional de Tóquio sobre Desenvolvimento Africano (Ticad), ocasião em que destacou às empresas japonesas que “a África apresenta um retorno atraente para os investidores”. O BAD está otimista sobre o crescimento econômico da África, que apoia por meio de vários serviços de financiamento disponibilizados a seus 54 países membros regionais.

Em 2018, a África registrou um crescimento real do PIB de 3,5%, informou o BAD em seu relatório anual. Esse é um momento positivo para aproveitar novos investimentos no continente. O banco declarou que 17 países africanos alcançaram um crescimento real do PIB superior a 5% em 2018 e 21 países apresentaram um crescimento entre 3% e 5%. Apenas cinco países africanos registraram recessão em 2018, abaixo dos oito registrados nos dois anos anteriores. Seis das dez economias que mais crescem no mundo são nações africanas: Burkina Faso, Costa do Marfim, Etiópia, Líbia, Ruanda e Senegal.

Segundo o BAD, alguns países não ricos em recursos tiveram altas taxas de crescimento em 2018, incluindo Costa do Marfim (7,4%), Ruanda (7,2%) e Senegal (7%), apoiados pela produção agrícola, a demanda do consumidor e o investimento público. Os fundamentos econômicos na maioria dos países africanos continuaram melhorando, afirmou o banco, atribuindo isso à consolidação fiscal e investimentos maciços em infraestrutura, grandes incursões em inovação financeira, aumento da demanda doméstica e melhorias substanciais no clima de investimentos.

Desenvolvimento da África

Convencido do forte potencial de crescimento econômico da África, o BAD investe em vários setores. Em 2018, aprovou empréstimos no valor de US$ 9,95 bilhões em seus programas High 5s – cinco programas que se concentram em setores essenciais:

    • Light Up and Power Africa – aprovações totais de US$ 1,9 bilhão, 23% a mais do que em 2017, com 447 megawatts em nova capacidade total de energia sendo instalada, sendo 197 megawatts de renováveis. Cerca de 90% dos empréstimos bancários foram focados no investimento em infraestrutura.

    • Feed Africa – foram beneficiadas 19 milhões de pessoas com tecnologias agrícolas aprimoradas e 1.700 toneladas de insumos agrícolas (fertilizantes, sementes, e outros). Quase US$ 1,54 bilhão foram aprovados em 2018 para transformar a agricultura no continente.

    • Industrialise Africa – foram favorecidos 154 mil operadores-proprietários e micro, pequenas e médias empresas com acesso a serviços financeiros. Empréstimos adicionais apoiaram atividades em uma ampla gama de manufaturas e serviços no setor privado.

    • Integrate Africa – cerca de 14 milhões de pessoas obtiveram acesso a melhores serviços de transporte, com investimentos de mais de US$ 1 bilhão, e mais de US$ 20 milhões nos últimos cinco anos em suporte a contratos comerciais e em transporte transfronteiriço e infraestrutura de energia leve.

    • Improve the Quality of Life for the People of Africa – benefícios para 8 milhões de pessoas com melhor acesso a água e saneamento.

“De qualquer forma, esses números e impactos são impressionantes. Mas as necessidades na África são enormes. É por isso que o banco está envolvido em discussões com seus acionistas para que um aumento geral de capital faça muito mais pela África, em direção à Agenda 2063”, destacou Adesina.

Riscos permanecem

Apesar de o PIB da África ter aumentado cerca de 3,5% em 2018, o crescimento econômico do continente está ameaçado por riscos domésticos, como mudanças climáticas, preocupações de segurança e migração, aumento da vulnerabilidade ao endividamento em alguns países e incertezas associadas a eleições e transições políticas, apontou o BAD, recomendando investimentos significativos do setor privado e financiamento externo em infraestrutura e financiamento regionais.

Em média, o déficit fiscal da África caiu de 5,8% em 2017, para cerca de 4,5% em 2018, enquanto a inflação caiu de 12,6% em 2017, para 10,9% em 2018. No entanto, o BAD lamentou que essas taxas de crescimento permanecessem insuficientes para enfrentar os desafios persistentes de alto desemprego, baixa produtividade agrícola, infraestrutura inadequada e déficits fiscais, além de vulnerabilidades da dívida.

Embora as receitas tributárias e a eficiência nos gastos tenham melhorado, a mobilização de recursos domésticos geralmente permanece muito aquém do potencial, pontuou o BAD, observando que 16 países africanos foram classificados como em dificuldades de dívida ou com alto risco de dificuldades de dívida no final de 2018. O banco insistiu no fortalecimento dos vínculos entre dívida e investimento para garantir um alto retorno social dos investimentos públicos financiados por dívida.

“Estou otimista sobre o futuro da África e confiante em nossa capacidade de causar um impacto maior na vida de milhões de pessoas neste amado continente ao qual fomos chamados a servir”, ressaltou Adesina. E acrescentou: “Precisamos de acesso universal à eletricidade. Devemos ajudar a tornar a África autossuficiente em alimentos. Devemos integrar completamente o continente. Devemos industrializar o continente. E devemos melhorar a qualidade de vida do povo da África”.

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Projeto solar planeja tornar a África uma casa de energia renovável

sex, 13/09/2019 - 12:03

NAÇÕES UNIDAS, 13 de setembro de 2019 (IPS) – Quando o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Antonio Guterres, lançou a Aliança Solar Internacional, em outubro de 2018, ele aplaudiu a meta de mobilizar cerca de US$ 1 trilhão para a implantação de cerca de mil gigawatts (GW) de energia solar até 2030. “Está claro que estamos testemunhando uma revolução global de energia renovável”, disse.

Essa revolução também está ocorrendo sob a liderança do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), que implantou a iniciativa Deserto ao Poder (DtP), um projeto solar altamente ambicioso para tornar a África uma casa de energia renovável. Espera-se que esse projeto se estenda pela região do Sahel, aproveitando o abundante recurso solar da região.

O projeto tem a meta de desenvolver e fornecer dez GW de energia solar até 2025 e atender 250 milhões de pessoas com eletricidade verde, inclusive em alguns dos países mais pobres do mundo. Pelo menos 90 milhões de pessoas estarão conectadas à eletricidade pela primeira vez, e sairão da pobreza energética.

Atualmente, 64% da população do Sahel – que abrange Senegal, Nigéria, Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Níger, Chade, Sudão, Etiópia, Djibuti e Eritreia – vive sem eletricidade, uma grande barreira ao desenvolvimento, com consequências para a educação, a saúde e os negócios. O BAD apontou, com razão, que a falta de energia continua sendo um impedimento significativo para o desenvolvimento econômico e social da África.

Iniciado em 2017 pelo BAD, o DtP foi descrito como “uma ambição grande e ousada: iluminar e energizar o Sahel, construindo uma capacidade de geração de eletricidade de dez gigawatts por meio de sistemas solares fotovoltaicos em projetos públicos, privados, redes e fora da rede pública até 2025, e consequentemente transformar a indústria, a agricultura e o tecido econômico de toda a região”.

Akinwumi A. Adesina

O doutor Akinwumi Adesina, presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, falando em Ouagadougou, capital de Burkina Faso, onde participou da Cúpula do G5 do Sahel, salientou a importância da vontade política no sucesso da iniciativa Deserto ao Poder, cujo objetivo é garantir acesso universal a eletricidade para mais de 60 milhões de pessoas por meio da energia solar.

O presidente de Burkina Faso, Mark Roch Christian Kaboré, aplaudiu a iniciativa Deserto ao Poder do BAD e também destacou o excelente relacionamento de seu país com o banco, expressando seu agradecimento pelo portfólio de projetos implementados. Adesina foi convidado na Cúpula do G5 do Sahel, realizada em 13 de setembro.

Adesina chamou a atenção para o paradoxo de que uma das regiões mais ensolaradas do mundo não tem acesso a eletricidade. “Agora, mais do que nunca, a cooperação e o comércio transfronteiriço de energia são essenciais para manter um suprimento seguro a longo prazo, diante dos desafios das mudanças climáticas”, disse, acrescentando que “em Burkina Faso foram tomadas medidas significativas com o projeto de eletrificação rural de Yeleen, apoiado pelo BAD”.

Como parte de sua estratégia de eletrificação para a África, o BAD está comprometido em acelerar o acesso a energia de alta qualidade e baixo custo para o povo do continente. As conexões críticas de rede foram aprovadas pelo Conselho do banco: Mali-Guiné, Nigéria-Níger-Benin-Burkina Faso e Chade-Camarões. O Projeto de Eletrificação Rural de Yeleen, envolvendo a produção de energia fora da rede em Burkina Faso, é o primeiro empreendimento da iniciativa DtP.

Burkina Faso, um país de baixa renda do Sahel, foi negativamente impactado por variações climáticas extremas, como declínio das chuvas, aumento da temperatura, inundações e secas. Com capacidade instalada de 285 megawatts, cerca de três milhões de famílias em Burkina Faso estão completamente sem energia.

Dos 19 milhões de habitantes de Burkina Faso, 90% vivem em áreas rurais, onde o acesso a eletricidade – principalmente com geradores a diesel – é de apenas 3%. A agricultura, a base da economia rural de Burkina Faso, também é a mais vulnerável aos impactos das mudanças climáticas.

O projeto é financiado pelo Fundo Africano de Desenvolvimento do BAD, além de contar com um cofinanciamento mobilizado pelo BAD a partir do Fundo Verde para o Clima (GCF) e da União Europeia. O projeto também alavancará os investimentos do setor privado por meio de ações e dívidas levantadas de bancos comerciais. Aproveitará a energia solar para fornecer eletricidade para mais de 900 mil pessoas nas áreas rurais – quase 5% da população do país – e deverá resultar em uma redução média anual de 15.500 toneladas nas emissões de CO2.

Durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP24) de dezembro de 2018, em Katowice, Polônia, Guterres pontuou que a energia renovável representou cerca de 70% das adições líquidas à capacidade global de energia em 2017, e que a energia solar está no centro dessa revolução. “Precisamos mudar rapidamente nossa dependência de combustíveis fósseis. Precisamos substituí-los por energia limpa gerada com água, vento e sol. Precisamos parar o desmatamento, restaurar florestas degradadas e mudar a maneira como cultivamos”, enfatizou. A alternativa à mudança para a energia verde, “é um futuro sombrio e perigoso”, ressaltou.

Segundo o BAD, estima-se que a pobreza energética na África custe ao continente entre 2% e 4% do PIB anualmente. Os detalhes da iniciativa Deserto ao Poder foram descritos como parte das negociações sobre mudanças climáticas do Acordo de Paris na COP24. “A energia é a base da vida humana, todo o nosso sistema depende disso. Para a África, no momento, fornecer e garantir energia sustentável está na espinha dorsal de seu crescimento econômico”, opinou Magdalena J. Seol, consultora do BAD, sobre a iniciativa Deserto ao Poder.

“A falta de energia permanece como um impedimento significativo ao desenvolvimento econômico e social da África. O projeto trará muitos benefícios para a população local. Vai melhorar o acesso a eletricidade para famílias de baixa renda e permitirá que as pessoas façam a transição para longe de fontes de energia perigosas, como o querosene, que traz riscos à saúde”, acrescentou Seol.

O projeto também criará empregos e ajudará a atrair o envolvimento do setor privado em energia renovável na região. Colocando o problema em sua perspectiva correta, pontuou Guterres, na COP24, na última década os preços das energias renováveis despencaram e os investimentos estão aumentando. “Hoje, um quinto da eletricidade do mundo é produzido por energia renovável. Nós devemos construir sobre isso”. Ele enfatizou que o mundo está vendo uma onda de ação climática.

“Está claro que energia limpa faz sentido para o clima. Mas também faz sentido econômico. Hoje é a energia mais barata. E trará benefícios significativos à saúde. A poluição do ar afeta quase todos nós, independentemente das fronteiras”, apontou Guterres, e incentivou empresas, governos e organizações da sociedade civil a divulgar o risco climático, a desinvestir em combustíveis fósseis e a estabelecer parcerias em projetos de infraestrutura resiliente de baixa emissão.

“Precisamos fazer isso, das maiores às menores cidades. As oportunidades são tremendas”, indicou Guterres, destacando que cerca de 75% da infraestrutura necessária até 2050 ainda precisa ser construída. “Como isso for feito, nos trancará em um futuro de alta emissão ou nos levará a um desenvolvimento verdadeiramente sustentável de baixas emissões. Existe apenas uma escolha racional”, ressaltou.

De acordo com o BAD, muitas empresas lideradas por mulheres atualmente enfrentam barreiras maiores do que as empresas lideradas por homens para acessar a eletricidade da rede – portanto, o projeto tem o potencial de aumentar a participação feminina em atividades econômicas e processos de tomada de decisão.

O projeto foi lançado em colaboração com o Green Climate Fund, criado pelos 194 países que fazem parte da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), que apoia os países em desenvolvimento a se adaptarem e mitigarem as mudanças climáticas. O programa foi projetado para combinar capital do setor privado com financiamento misto.

“Se você olhar para os países que essa iniciativa apoia, eles são os mais afetados pelas mudanças climáticas e pelas emissões de carbono de outras partes do mundo”, indicou Seol. “Diante disso, os investimentos terão um efeito maior nessas regiões, com maior demanda e oportunidade de mercado no setor de energia. “As mulheres geralmente são desproporcionalmente afetadas negativamente pelos problemas de acesso a energia. Fornecer uma eletricidade segura e sustentável também cria um impacto positivo na questão de gênero”, acrescentou.

O continente africano detém 15% da população mundial, mas deve arcar com quase 50% dos custos estimados de adaptação às mudanças climáticas globais, de acordo com o BAD. Esses custos devem reduzir investimentos em saúde, abastecimento de água, agricultura e silvicultura, apesar de sua contribuição mínima para as emissões globais.

No entanto, a Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) avalia que o potencial de energia renovável da África possa colocar o continente na vanguarda mundial da produção de energia verde. Estima-se que tenha um potencial quase ilimitado de capacidade solar (10 TW), energia hídrica abundante (350 GW), eólica (110 GW) e fontes de geotérmica (15 GW) – e uma potencial capacidade global de energia renovável de 310 GW em 2030.

Outros projetos de energias renováveis na África incluem o complexo solar Ouarzazate, em Marrocos, que é uma das maiores usinas solares concentradas do mundo. Produziu mais de 814 GW por hora de energia limpa desde 2016 e, no ano passado, a usina solar impediu a emissão de 217 mil toneladas de dióxido de carbono. Até recentemente, o Marrocos supria 95% de suas necessidades de energia com fontes externas.

Na África do Sul, o BAD e seu parceiro, o Climate Investment Fund, ajudaram a financiar o Parque Eólico Sere – 46 turbinas que fornecem cem megawatts à rede elétrica nacional, atendendo 124 mil casas – e esperam economizar seis milhões de toneladas de gases de efeito estufa ao longo de sua vida útil, prevista para um período de 20 anos.

A COP24 é a 24ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Este ano, os países estão se preparando para implementar o Acordo de Paris, que tem o objetivo de limitar o aquecimento global do mundo a não mais que 2º Celsius.

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A longa luta contra a discriminação da hanseníase

qui, 18/07/2019 - 13:44

BRASÍLIA, , 15 de julho de 2019 (IPS) –  – Aos 80 anos, Yohei Sasakawa ainda está viajando o mundo para promover soluções para alguns flagelos da humanidade, como a doença de Hansen, guerras e incapacidades, fatores de estigmas e exclusões.

Dialogar com líderes mundiais e com afetados, geralmente pobres, é a sua maneira de mobilizar os esforços locais, com apoio técnico e financeiro oferecido por 23 organizações que operam em rede com a Fundação Nippon, cujo Conselho de Administração Sasakawa preside desde 2005, após 17 anos como presidente executivo.

 

 

A inovação social é a missão declarada da Fundação, criada em 1962 como uma organização privada sem fins lucrativos com sede em Tóquio. Desde 2001, Sasakawa é embaixador da Boa Vontade pela Eliminação da Hanseníase da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Também é, desde 2013, enviado especial do governo do Japão para a reconciliação nacional em Mianmar (Birmânia), refletindo a diversidade de seu ativismo, que vai da proteção dos oceanos à assistência a deficientes e crianças vulneráveis.

Por mais de 40 anos dedicou grande parte de suas atividades a combater a doença de Hansen e seus males associados, como preconceito, estigma e discriminação, que persistem apesar de se saber que a infecção é totalmente curável e deixa de ser contagiosa assim que o tratamento é iniciado.

Em seu trabalho contra a lepra, Sasakawa esteve no Brasil de 1º a 10 de julho, onde começou com reuniões com autoridades políticas e de saúde nos estados do Pará e do Maranhão, dois dos estados com maior incidência de lepra, um termo médico banido no país e substituído por hanseníase.

Depois, em Brasília, Sasakawa reuniu-se com o presidente Jair Bolsonaro e seus ministros das áreas de Saúde e Direitos Humanos, no qual emergiu a celebração, em 2020, de um encontro nacional sobre a hanseníase no Brasil, o país com a segunda maior quantidade de novos casos no mundo, com 26.875 em 2017, perdendo apenas para a Índia, com 126.164 casos, segundo dados da OMS.

Sasakawa está particularmente preocupado com a discriminação e as desigualdades geradas por diferentes fatores no mundo, e não apenas por essa doença, reflete em sua entrevista para a IPS.

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O diagnóstico precoce é a solução para a hanseníase

ter, 16/07/2019 - 15:32

BRASÍLIA, 13 de julho de 2019 (IPS) – Em 27 de junho, Faustino Pinto estava em Genebra, Suíça, e falou na Organização das Nações Unidas sobre a luta contra a doença de Hansen e seu estigma, em uma reunião durante a 41ª sessão do Conselho de Direitos Humanos.

Onze dias depois, em Brasília, ele abordou a mesma questão com o presidente Jair Bolsonaro, quando acompanhou o encontro dele com Yohei Sasakawa, presidente da Fundação Nippon e embaixador da Boa Vontade pela Eliminação da Hanseníase da Organização Mundial de Saúde, que visitou o Brasil entre 1º e 10 de julho.

Pinto expressou sua opinião como coordenador nacional do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) em todas as reuniões realizadas por Sasakawa com ministros, legisladores e outros funcionários das áreas de saúde e direitos humanos na capital brasileira.

 

 

O objetivo foi intensificar os esforços nacionais para eliminar essa doença infecciosa e a discriminação contra os doentes e os já curados. Abolir o termo lepra para designar a enfermidade causada pelo bacilo Mycobacterium leprae é uma bandeira permanente de Pinto, que considera isso uma necessidade perante a carga de preconceitos que essa palavra acumulou ao longo dos séculos, consolidados inclusive em partes da Bíblia.

Outra grande dificuldade, diz ele, é o desconhecimento sobre a doença pela população, o que impede o diagnóstico precoce e, consequentemente, que se evitem sequelas nos pacientes, como danos ao sistema nervoso periférico que podem levar a deficiências.

Pinto sentiu os primeiros sintomas de sua infecção aos nove anos e sofreu mais nove até o diagnóstico de hanseníase. Portanto, os cinco anos de tratamento não conseguiram evitar algumas sequelas, que são especialmente perceptíveis nos dedos sem flexibilidade de suas mãos.

Por isso, destaca a necessidade de diagnóstico precoce para uma cura verdadeira e a eliminação dessa doença. Aos 48 anos, tornou-se um ativista ouvido em todos os lugares, até mesmo internacionalmente, na luta contra essa enfermidade que segue afetando principalmente os pobres. No Brasil, são quase 30 mil novos casos por ano, um número superado apenas pela Índia.

 

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Preconceito e discriminação, os males não curados da hanseníase

sex, 12/07/2019 - 05:59

BRASÍLIA, 11 de julho de 2019 (IPS) – “A equipe da ambulância recusou-se a levar o meu amigo doente para o hospital, porque muito antes ele teve hanseníase”, contou Yohei Sasakawa, presidente da Fundação Nippon, em uma das reuniões durante sua visita ao Brasil, entre 1º e 10 de julho. O amigo estava completamente curado e não havia sequelas, mas em uma cidade pequena todo mundo conhece a vida dos vizinhos, disse.

O fato não aconteceu em um país pobre, mas no estado do Texas, nos Estados Unidos, cerca de 50 anos atrás, detalhou Sasakawa, para enfatizar os danos da discriminação contra as pessoas que sofrem da doença de Hansen, vulgarmente conhecida como lepra, da mesma forma que aqueles que já foram curados da doença infecciosa e seus parentes.

“A doença é curável, seus danos sociais não”, destacou Sasakawa durante a reunião com o deputado Helder Salomão, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, para pedir apoio para a luta contra a hanseníase, a denominação médica oficial da enfermidade no Brasil, onde o uso do termo lepra foi eliminado, devido à carga de estereótipos que acarreta.

O destaque da missão de Sasakawa, também embaixador da Boa Vontade pela Eliminação da Hanseníase, da Organização Mundial de Saúde (OMS), foi a reunião, no dia 8, com o presidente Jair Bolsonaro, que na ocasião lançou uma mensagem em sua conta no Facebook que até as primeiras horas do dia 11 já tinha 685.345 reproduções.

No vídeo de 13 minutos, falam o presidente brasileiro, Sasakawa, o ministro da Saúde, Luiz Mandetta, e a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, em uma chamada para um trabalho em conjunto de autoridades, organizações e as próprias pessoas para erradicar a doença causada pelo bacilo Mycobacterium leprae.

Os diálogos que o ativista japonês e líder da Fundação Nippon manteve com os membros dos vários poderes em Brasília resultaram em um acordo preliminar para a realização, em 2020, de um encontro nacional para intensificar a luta contra a hanseníase e seus estigmas. Será, em princípio, uma conferência com uma dimensão política, que envolveria autoridades nacionais, governadores e prefeitos, e outra reunião técnica, disse Carmelita Ribeiro Coriolano, coordenadora do Programa de Hanseníase do Ministério da Saúde. A Fundação Nippon patrocinará os dois encontros.

O Brasil tem a segunda maior incidência de hanseníase no mundo, com 26.875 novos casos em 2017, o que corresponde a 12,75% do total mundial, segundo a OMS. Apenas a Índia excede esses valores. O governo estabeleceu uma Estratégia Nacional para Enfrentar a Hanseníase para o período 2019-2022, que segue as linhas da estratégia global proposta pela OMS desde 2016.

 

Damares Alves, ministra brasileira da Mulher, Família e Direitos Humanos, recebeu um presente de Yohei Sasakawa, presidente da Fundação Nippon, no início de uma reunião em Brasília, na qual a ministra prometeu reforçar a assistência aos afetados pelo doença de Hansen, incluindo o pagamento de indenização aos que no passado foram isolados em leprosários. Foto: Mario Osava/IPS

 

Uma ampla capacitação dos atores envolvidos no tratamento da doença e planos em nível de estados e municípios, adaptados às condições locais, orientam os esforços para reduzir especialmente os casos que causam graves sequelas físicas em crianças e para eliminar o estigma e a discriminação.

Antes de sua visita a Brasília, Sasakawa, que visitou o país mais de dez vezes em sua missão pela eliminação da doença de Hansen e seus estigmas, esteve nos estados do Pará e Maranhão para discutir, com autoridades estaduais e municipais, os avanços e obstáculos para esse objetivo em duas das regiões mais infectadas.

“No Brasil, não faltam recursos e treinamentos, mas profissionais de saúde sensíveis, e uma atenção especial à hanseníase”, disse Faustino Pinto, coordenador nacional do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), que acompanhou a delegação da Fundação Nippon em Brasília. “Promover o diagnóstico precoce, evitar sequelas, melhorar a informação para a sociedade e reabilitação física para garantir melhor vida ativa e profissional aos afetados” são as medidas mais necessárias, apontou à IPS.

Ele mesmo é um exemplo de inadequação nos serviços de saúde. Seu diagnóstico de infecção por hanseníase só foi obtido aos 18 anos, nove após sentir os primeiros sintomas. A cura exigiu cinco anos de tratamento e houve sequelas nas mãos e articulações. Seu drama pessoal e a defesa dos direitos dos pacientes, ex-enfermos e suas famílias estiveram presentes em sua apresentação no dia 27 de junho, em Genebra, durante uma reunião especial sobre a doença, paralelamente à 41ª sessão do Conselho de Direitos Humanos, órgão máximo da Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Pinto é um eloquente defensor do uso dos termos hanseníase ou doença de Hansen, em vez de lepra, designação imprecisa que acumula uma carga de preconceitos históricos e religiosos, com danos adicionais para os afetados e que a OMS, por exemplo, continua a usar habitualmente. A discriminação é milenar e tem origem inclusive na Bíblia, onde a doença aparece como um castigo de Deus, observou Sasakawa durante sua reunião com a ministra Damares Alves, uma pastora evangélica da confissão Batista que definiu-se como “terrivelmente cristã”.

 

Yohei Sasakawa (segundo da esquerda para a direita), presidente da Fundação Nippon, acompanhado por dois membros de sua delegação, durante a reunião com o deputado Helder Salomão (centro), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados do Brasil, que se comprometeu com o apoio a iniciativas para eliminar a hanseníase no país. O encontro também contou com a presença de Faustino Pinto (segundo da direita para a esquerda), coordenador nacional do Movimento pela Reintegração de Pessoas Afetadas pela Hanseníase (Morhan). Foto: Mario Osava/IPS

 

Na Índia existem 114 leis que discriminam os doentes e aqueles já curados, vedando-lhes transporte e lugares públicos entre outros absurdos, exemplificou Sasakawa. Alegam que são leis que não são mais aplicadas, o que justifica ainda menos que elas permaneçam formalmente válidas, argumentou Sasakawa durante suas reuniões em Brasília às quais a IPS teve acesso.

Preconceito e desinformação não somente submetem os afetados à exclusão e sofrimento desnecessários, mas dificultam a erradicação da doença de Hansen, ao afastar os doentes da assistência médica, concordam ativistas. Ao longo da sua atividade para controlar e eliminar a hanseníase, uma missão que começou mais de 40 anos atrás, Sasakawa tornou-se convencido de que é crucial a batalha contra o estigma que ainda persiste nas entranhas da sociedade.

É por isso que ele trabalhou para que a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovasse, em 2010, a Resolução para a Eliminação da Discriminação contra as Pessoas Afetadas pela Hanseníase e suas Famílias. Trata-se, disse o presidente da Fundação Nippon, de atitudes e crenças que não fazem mais sentido à luz da ciência, mas que persistem.

Desde os anos 1940, é conhecido o tratamento que torna desnecessário o isolamento dos pacientes para evitar a infecção, mas a segregação e a detenção em leprosários foi oficialmente mantida em vários países por várias décadas. No Brasil, essa segregação durou oficialmente até 1976 e, na prática, até a década seguinte. Com o tratamento multimedicamentoso, introduzida no Brasil em 1982, a cura tornou-se mais segura e rápida.

Informação é a chave para superar os problemas envolvidos na doença, de acordo Socorro Gross Galiano, representante da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) no Brasil, que também teve reuniões com a delegação da Fundação Nippon.

“A comunicação é crítica, os meios de comunicação podem ajudar decisivamente” para desfazer os temores atávicos, esclarecer que a doença de Hansen tem cura segura, é pouco contagiosa e deixa de ser com o tratamento, observou à IPS a médica costa-riquenha com mais de 30 anos de experiência na Opas em vários países da América Latina.

Para superar as dificuldades de erradicação, também é necessário que deixe de ser “uma doença esquecida” e mobilizar comunidades, tarefas nas quais a comunicação também é importante, concluiu Galiano.

Edição: Estrella Gutiérrez

Tradução para o português: Nanci Vieira

 

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A batalha de uma vida contra a “doença do silêncio”

qui, 11/07/2019 - 06:06

Mario Osava entrevista YOHEI SASAKAWA, presidente da Fundação Nippon.

BRASÍLIA, 10 de julho de 2019 (IPS) – Yohei Sasakawa já dedicou metade de seus 80 anos ao enfrentamento da doença de Hansen, a “doença do silêncio”, e continua em batalha, como presidente da Fundação Nippon e embaixador da Boa Vontade pela Eliminação da Hanseníase, da Organização Mundial da Saúde (OMS). Seu foco está na luta contra a discriminação, o preconceito e o estigma que exacerbam o sofrimento dos doentes, suas famílias, e até mesmo daqueles que já estão curados. E que também dificultam o tratamento, porque as pessoas infectadas se escondem por medo das hostilidades, destacou Sasakawa à IPS, em entrevista realizada em Brasília, capital brasileira.

Sasakawa visitou o Brasil de 1º a 10 de julho, em seu permanente ativismo pela redução dessa doença estigmatizada pela Bíblia e seus danos sociais. Em Brasília, mobilizou o presidente Jair Bolsonaro, legisladores e outras autoridades de saúde e direitos humanos, para promover uma ação mais forte contra a doença, também conhecida como lepra. Surgiu nas reuniões a ideia de promover um encontro nacional sobre a doença de Hansen, com o objetivo político de disseminação do conhecimento e disposição para erradicar todos os preconceitos, e um encontro técnico para melhorar as estratégias e operações contra a enfermidade.

O Brasil é o segundo país em número de novos infectados diagnosticados a cada ano, perdendo apenas para a Índia. O país lançou uma Estratégia Nacional para Enfrentar a Hanseníase de 2019 a 2022, com planos também em nível de municípios e estados, com base na realidade local.

A Fundação Nippon, com sede em Tóquio, financia alguns projetos e está disposta a apoiar novas iniciativas brasileiras. Brasil e Japão aboliram a palavra lepra na terminologia médica, devido à sua carga de preconceitos e distorções, e aprovou a hanseníase como um nome mais preciso para identificar a infecção pelo bacilo Mycobacterium leprae, e assim se referiu Sasakawa a essa doença crônica durante a entrevista, embora a OMS mantenha o termo lepra.

IPS: Por que você escolheu enfrentar a doença de Hansen e seus diferentes tipos de danos para os doentes e suas famílias?

Yohei Sasakawa: Tudo começou com meu pai, o fundador da Fundação Nippon, que quando jovem apaixonou-se por uma jovem que desapareceu de repente, levada para bem longe, isolada. Meu pai sentiu como uma crueldade e, impulsionado por um espírito de justiça, iniciou esse movimento. A razão para o desaparecimento não foi declarada, mas eu sinceramente acredito que foi hanseníase. Mais tarde, meu pai construiu hospitais em diferentes lugares, um deles na Coreia, em cuja inauguração eu o acompanhei. Naquela ocasião, observei que meu pai tocava as mãos e as pernas dos pacientes, embora tivessem pus, e os abraçou. A cena me impressionou. Fiquei surpreso por dois motivos: assustou-me que meu pai abraçasse naturalmente as pessoas nessas condições, e que até então eu não conhecia tal doença. Eu vi pessoas com uma cor doente, não saudável. Eram pessoas mortas que estavam vivas, vivas mas mortas, abandonadas pela própria família. Imediatamente senti admiração pelo trabalho de meu pai e decidi que deveria continuá-lo.

IPS: Quais são as principais dificuldades para a erradicação da hanseníase?

YS: Em geral, os especialistas, intelectuais, quando param diante de um problema, apresentam dez razões para a impossibilidade de resolvê-lo. Eu tenho a forte convicção de que é possível, e por isso enfrento o problema de uma forma que eu possa identificá-lo e, ao mesmo tempo, encontrar uma solução. Aqueles que veem dificuldades geralmente trabalham em escritórios com ar-condicionado, com papéis, estudando dados. O mais importante é ter a firme convicção de que o problema é solucionável e agir. Desde os anos 1980, mais de 16 milhões de pessoas foram libertadas da hanseníase. Atualmente, o mundo registra redução de 200 mil pacientes por ano.

 

O presidente da Fundação Nippon, Yohei Sasakawa (centro), durante seu encontro com o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (esquerda), em uma captura feita pela IPS do vídeo que o presidente divulgou no Facebook para conscientizar a população sobre a importância de eliminar a hanseníase e erradicar os preconceitos que perseguem os doentes e suas famílias. Foto: IPS

 

IPS: Qual o papel dos preconceitos, estigmas e discriminação na luta contra essa doença?

YS: Boa pergunta. Depois de colaborar durante muitos anos com a OMS, principalmente com foco na cura da doença, percebi que muitas pessoas que já haviam sido curadas não conseguiam um emprego ou um casamento, e continuavam nas condições que sofriam quando estavam doentes. Concluí que a hanseníase era como uma motocicleta quebrada: a roda da frente é a doença que pode ser curada, e a de trás, nas costas, é onde estão preconceito, discriminação e estigma. Sem consertar as duas rodas, não há cura.

Em 2003, apresentei à Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) uma proposta para eliminar a discriminação contra a hanseníase. Após sete anos de procedimentos, a Assembleia Geral aprovou, por unanimidade dos seus 193 países-membros, uma resolução para erradicar essa ferida que afeta tanto o portador da doença como o curado e suas famílias. Mas isso não significa que o problema esteja resolvido, porque preconceito e discriminação são doenças que estão dentro da sociedade.

As pessoas acreditam que a hanseníase é uma punição de Deus, uma maldição, um mal hereditário. É difícil tirar esse julgamento incrustado em suas mentes. Ainda hoje há muitos recuperados, totalmente curados, que não conseguem um emprego, um casamento. Ou seja, apesar da legislação, suas condições não podem ser melhoradas devido ao preconceito incorporado ao coração das pessoas. No Japão, as famílias que tinham uma pessoa doente viram seus filhos que tiveram a doença sem poder se casar, não só em uma, mas em várias gerações. Isso não acontece agora.

Por isso que eu viajo o mundo para falar contra a discriminação que marginaliza as pessoas afetadas. Mas são os preconceitos, que existem há dois mil anos, que não podem ser superados em dois ou três anos. Muitos compartilham minha perspectiva e andam comigo. Algum dia a discriminação terminará. É mais difícil curar a doença que existe dentro da sociedade do que a própria doença. Meu esforço é para o diálogo com os presidentes e ministros, pessoas com poder de liderança, de modo que minhas mensagens ganhem poder político e levem à solução.

IPS: Como o Japão erradicou a doença de Hansen?

YS: Um caminho foi a ação coletiva dos doentes. Campanhas na mídia por muito tempo para disseminar conhecimento sobre a realidade da doença. Havia também filmes, livros, peças de teatro. No Japão, a hanseníase deixou de ser a doença do silêncio. A nação pediu desculpas pela discriminação e compensou os afetados. Mas, em outros países, os doentes ainda não se uniram para se manifestar. No Brasil há um movimento muito ativo.

IPS: Você coloca como exemplo do que pode ser feito o Movimento Brasileiro de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase, o Morhan. Existem iniciativas semelhantes em outros países?

YS: O Morhan é algo muito proeminente e um modelo. Organizações de pacientes foram formadas na Índia e na Etiópia, mas ainda com influência política limitada. A Fundação Nippon incentiva esse tipo de movimento.

IPS: Você já visitou o Brasil mais de dez vezes. Você verificou avanços nessa visita aos estados do Pará e Maranhão, e a Brasília?

YS: Nessa viagem, não pudemos visitar as casas dos pacientes e falar com eles, mas vimos que os governos nacionais, regionais e locais estão motivados. Podemos expandir nossas atividades aqui. Em qualquer país, se os principais líderes, incluindo os presidentes e primeiros-ministros, tomarem a iniciativa, soluções podem ser aceleradas. Concordamos em preparar um encontro nacional promovido pelo Ministério da Saúde e patrocinado pela Fundação Nippon, se possível com a participação do presidente Jair Bolsonaro, para impulsionar a ação contra a enfermidade. Acreditamos que isso geraria uma forte corrente para reduzir a zero a hanseníase, a discriminação e o preconceito. Com isso, minha visita pode ser considerada muito bem-sucedida.

IPS: O que se destaca entre os resultados da sua visita?

YS: A mensagem que o presidente Bolsonaro divulgou diretamente à população pelo Facebook durante a nossa reunião, com sua opinião dirigida a todos os políticos, sua equipe e funcionários, sobre a necessidade de eliminar a doença. Eu sinto como se tivesse obtido o apoio de um milhão de pessoas que trabalharão conosco.

 

Edição: Estrella Gutiérrez

Tradução para o português: Nanci Vieira

 

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Ajuda japonesa para a complexa eliminação da lepra no Brasil

ter, 09/07/2019 - 10:19

BRASÍLIA, 8 de julho de 2019 (IPS) – Quando no Brasil os casos de hanseníase, mais conhecida como doença de Hansen, aumentam, a falta de assistência de serviços médicos não deve ser responsabilizada, mas sim deve ser reconhecida sua eficiência no diagnóstico das pessoas infectadas, ao contrário do que pode acontecer em outros países.

Essa singularidade da doença foi destacada na visita do presidente da Fundação Nippon, Yohei Sasakawa, aos estados do Pará e Maranhão, no Norte e Nordeste do Brasil, entre os dias 2 e 7 de julho, para conhecer e incentivar os esforços para reduzir a incidência da doença, que não se limita à infecção pelo bacilo Mycobacterium leprae.

Sasakawa continua, a partir do dia 8, sua visita a este país latino-americano, em Brasília, na etapa mais institucional da viagem, para se reunir com o presidente Jair Bolsonaro e outras autoridades dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, antes de retornar ao Japão, no dia 10. A Fundação Nippon financia vários projetos no Brasil, um dos quais facilita as comunicações por telefone e internet para expandir e melhorar a informação sobre essa doença crônica e combater o preconceito, o estigma e a discriminação associados a ela.

O diagnóstico precoce é uma das recomendações destacadas nas reuniões de Sasakawa com autoridades do Estado do amazônico do Pará, de acordo com Claudio Salgado, presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia e professor na Universidade Federal do Pará. “A hanseníase (como é chamada a doença no Brasil) não se manifesta em fases agudas de febre, calafrios e confusão mental, como a malária”, explicou à IPS, em Belém, capital do Estado.

Seus sintomas, como manchas insensíveis na pele, geralmente levam anos para se manifestar, quando já são sequelas irreversíveis, como a perda de dedos e movimentos das mãos ou membros inteiros. Além disso, os casos são dispersos, dificultando ainda mais a identificação dos pacientes, embora já existam meios de diagnóstico precoce, como os chamados exames de contato.

Estima-se que cerca de 95% das pessoas têm uma resistência natural ao contágio, que não ocorre tão facilmente como muitos acreditam, por mitos espalhados sobre o mal. É necessária uma convivência muito próxima e a possibilidade desaparece com pouco tempo de tratamento regular do paciente.

Por tudo isso, pode se tornar uma armadilha a fixação de metas quantitativas, como estabeleceu a Organização Mundial da Saúde (OMS) para “eliminar” a lepra até o ano 2000, advertiu Salgado. A eliminação é considerada uma meta alcançada quando os novos casos anuais não atingem um por dez mil habitantes.

A batalha contra essa doença infecciosa ganhou um aliado fundamental em 1982, quando se tornou disponível o tratamento multimedicamentoso, cuja eficácia permitiu a cura de mais de 16 milhões de infectados desde então, segundo a OMS. O Brasil é o único país do mundo que não atingiu formalmente o objetivo. Em 2017, houve 26.875 novos casos em uma população que, então, totalizou 200 milhões de habitantes. Isso resultou em 1,35 por dez mil pessoas, de acordo com o relatório da OMS.

Salgado duvida das estatísticas que apontam para uma redução em saltos, que são uma impossibilidade em epidemiologia, e que o Brasil seja o país que concentra 92% dos novos casos nas Américas, como reconhece o Ministério da Saúde em sua Estratégia Nacional para Enfrentar a Hanseníase 2019-2022.

 

Jantar em que o governador do Maranhão, Flávio Dino, recebeu a delegação da Fundação Nippon, que financia projetos em benefício de pessoas afetadas pela hanseníase em várias cidades desse Estado do Nordeste brasileiro. A visita e as reuniões com autoridades de saúde encorajaram novos esforços na luta contra a doença e suas consequências, como deficiências, estigmas e discriminação. Foto: Artur Custódio/IPS.

 

Seria admitir realidades muito diferentes em relação à lepra, entre o Brasil e seus vizinhos, apesar das semelhanças nas condições econômicas, sociais e ambientais. Um aparente paradoxo é gerado. Um país que diminui sua atenção à doença terá estatísticas favoráveis, em contraste com a provável expansão da hanseníase. Haverá menos casos diagnosticados, enquanto a realidade piora.

No Maranhão, o segundo estado brasileiro visitado por Sasakawa, o índice é alto, 4,4 novos casos por ano por dez mil habitantes. “Detectamos 3.125 casos por ano em média”, disse Lea Terto, superintendente de Epidemiologia e Controle de Doenças da Secretaria de Saúde. Preocupa o fato de que o Maranhão é o estado em que mais crianças e adolescentes menores de 15 anos são infectados, refletindo a sua convivência com adultos sem tratamento, destacou à IPS, em São Luís, capital do Estado.

A presença de Sasakawa despertou entusiasmo entre os profissionais de saúde em clínicas, antigas colônias de leprosos e cidades visitadas, respondendo aos benefícios dos projetos financiados pela Fundação Nippon. O Maranhão foi o estado mais beneficiado por um projeto, implementado desde 2017, que visa a reforçar a atenção para a doença de Hansen em 20 dos municípios com maior incidência no Brasil, disse à IPS, também de São Luís, Artur Custódio, coordenador nacional do Movimento de Reintegração dos Afetados pela Hanseníase (Morhan).

A visita foi “muito positiva” para fortalecer a vontade dos envolvidos e renovar o compromisso do governo local com a redução da doença e problemas que dificultam a sua prevenção, avaliou Terto, enfermeira há 37 anos. Ela ficou impressionada com a declaração de um visitante de que estão doentes as pessoas mais preconceituosas. “Pesquisa ativa e exames de contato” são as prioridades desse trabalho, para “reduzir a incidência de maneira concreta e responsável”, o que significa uma redução lenta, de cerca de 2% dos novos casos por ano, apontou. Mas se mais casos do que o esperado aparecem, melhor, porque significa que novos pacientes foram identificados sem tratamento, observou Terto.

Além das dificuldades de se tirar a lepra da invisibilidade, também é uma preocupação o abandono no meio do tratamento, que pode durar de seis meses a mais de um ano, dependendo da gravidade, até o bacilo deixar o corpo. Garantir a adesão do paciente até o final, nos casos mais complexos, exige esforços, por suas condições de vida.

Para estimular os infectados a persistirem no tratamento, a Fundação Nippon financia a distribuição de cestas básicas para as famílias afetadas em Marabá, cidade do interior do Estado do Pará, visitada por Sasakawa em 3 de julho. Uma melhor nutrição também ajuda na cura, que é eficaz se a pessoa infectada fizer o tratamento pelo tempo prescrito.

Sasakawa iniciou sua turnê no norte do Brasil, visitando a clínica Marcello Candia, Unidade de Referência Especializada em Dermatologia, em Marituba, cidade de 108 mil habitantes no Pará. Existia ali um leprosário que marca a história da cidade e a de José Picanço, coordenador do Morhan no Pará, que, como seus dois irmãos, viveu separado dos pais infectados com o mal, que foram detidos e isolados no recinto, em 1972. Na prática, ele e seus irmãos também foram tratados como “leprosos”.

As crianças foram separadas dos pais e mantidas em orfanatos. Estima-se que de 15 mil a 20 mil sofreram no Brasil, e ainda sofrem, as consequências sociais e psicológicas da lepra, por causa da antiga lei de segregação dos doentes. Seus pais, que sobreviveram até 2007, pelo menos conseguiram o direito a uma indenização pela violência do Estado contra eles. Mas seus filhos ainda estão lutando por tal direito como vítimas.

“Há estados, como Minas Gerais e Ceará, que, por decreto governamental ou projetos em trâmite parlamentar, tratam de reconhecer esse direito. Mas, como o drama resultou de uma política nacional, a indenização depende do governo federal”, explicou Picanço à IPS, de Belém. Na sua avaliação, a visita de Sasakawa reforçou as várias lutas para o diagnóstico precoce da doença, os direitos das pessoas afetadas e a necessidade de mais divulgação sobre a hanseníase pelos meios de comunicação, que atualmente está limitado a uma campanha anual em janeiro.

Edição: Estrella Gutiérrez

Tradução para o português: Nanci Vieira

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