Inimaginável: William Bonner, o âncora mais conhecido e editor-chefe do mais importante telejornal brasileiro, obrigado a fazer o papel de coadjuvante no segundo dia da Copa das Confederações porque as ruas de dez capitais do país – inclusive Brasília – foram tomadas por gigantescas manifestações populares. Muitas contra o desperdício de dinheiro para construir estádios suntuosos para os megaeventos até 2016.
Tudo previsto, armado, roteirizado: Bonner conduziria o jornal a partir das capitais onde a seleção brasileira deveria jogar (na segunda-feira, 17/6, estava em Fortaleza), enquanto a companheira de bancada Patricia Poeta faria a interlocução. Na primeira edição em dia útil, ela acabou conduzindo noticiário e ele contentou-se com breves comentários. Inédito, assustador.
O preconceito, o oportunismo, o conservadorismo e a ignorância venceram mais uma vez a saúde pública e violaram direitos. O Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde lançou no final de semana nas redes sociais uma campanha destinada às profissionais do sexo. Com o tema “Sem vergonha de usar camisinha”, o objetivo é reduzir o estigma da prostituição da associada à infecção pelo HIV e aids.
O material da ação – banners e vídeos – foi feito a partir de uma Oficina de Comunicação em Saúde para Profissionais do Sexo, realizada em João Pessoa (PB), de 11 a 14 de março. As peças da campanha trazem mensagens contra o preconceito, sobre a necessidade de prevenção da infecção pelo HIV e demais doenças sexualmente transmissíveis e a vontade de as prostitutas serem respeitadas. Médicos e especialistas na prevenção de DST-Aids elogiaram o material. Porém, nessa terça-feira 4, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, cometeu dois desatinos, após protestos e pressões da bancada evangélica.
Assistimos a mais uma ocupação do canteiro de obras da usina de Belo Monte, em Altamira (PA), a terceira apenas neste ano (veja aqui). Mas essa teve algo diferente das outras. Primeiro, foi liderada não por grupos de pessoas diretamente impactadas pela hidrelétrica, mas por indígenas Munduruku, que vivem na Bacia do Tapajós, próximo rio amazônico a ser interrompido por grandes barragens. Segundo, os manifestantes não estão chorando sobre o leite derramado, buscando migalhas de compensação para sobreviver até a próxima ocupação, mas lutam para que possam ter o direito de opinar sobre seu futuro.
Violência e disputa. Estas são expressões constantes no panorama agrário brasileiro. Nos últimos anos, vemos no campo e na floresta uma crescente e intensa disputa territorial, que se traduz também numa disputa entre concepções, entre propostas, entre projetos de sociedade. Uma luta entre o Território dos Povos e o Território do Capital, como diria Jean Pierre Leroy, travada com uma correlação de forças imensamente desigual e desfavorável para aqueles identificados com o Território dos Povos.
A Constituição de 1988 atribuiu ao Poder Público a obrigação de titular as terras ocupadas por comunidades remanescentes de quilombos. Essa determinação pretendeu resgatar a dívida histórica do país com os afrodescendentes que se refugiaram em comunidades fugidas da escravidão ou formadas após a Abolição pelos que não foram absorvidos pelo regime assalariado. Desterradas de suas origens, elas fixaram-se ou permaneceram em locais mais ou menos remotos, de forma quase invisível, e resgataram ou reconstruíram sistemas de subsistência e de compreensão do mundo que se traduzem em inúmeros conhecimentos tradicionais, manifestações culturais, na nossa música e culinária, na nossa cara.
O Brasil tem assistido ao embate público entre segmentos religiosos e movimentos sociais em torno da pauta dos direitos sexuais. O panorama opõe, de um lado, setores que se manifestam contrários, baseados em conteúdos doutrinários, às práticas e às orientações sexuais e identidades de gênero não tradicionais, tais como a homossexualidade e os fenômenos transgêneros. O discurso tem sido direcionado não apenas para a perspectiva abstrata, dos valores morais, mas também para os espaços políticos de definição de leis e políticas públicas, interferindo no trâmite de projetos e no encaminhamento de ações governamentais. Do outro lado, movimentos de direitos humanos, apoiados por artistas e intelectuais, mobilizam-se contra o que entendem como uma articulação indevida: política e religião. Em jogo, uma espécie de guerra cultural em que a coexistência das diferenças mostra-se conflituosa, jogando luz sobre os limites muitas vezes borrados entre a tolerância e o discurso de ódio.
"O brilho dos grandes eventos esportivos começa a esmorecer, o marketing não consegue sustentar uma imagem construída sobre base tão frágil, e aos poucos a cidade real se impõe. Para mudar a realidade do Rio de Janeiro não basta ostentar teleférico em favela (...)
O Fórum Social Mundial (FSM), que acaba de encerrar sua edição atualmente bienal, aconteceu este ano em Túnis. Foi vastamente ignorado pela imprensa mundial. Muitos de seus participantes eram céticos que falavam de sua irrelevância, algo que acontece a cada encontro desde sua segunda edição, em 2002. Foi marcado por debates sobre sua própria estrutura e esteve repleto de polêmicas sobre qual a estratégia política correta para o mundo da esquerda. Apesar disso, foi um enorme sucesso.
Uma maneira de medir seu êxito é relembrar o que ocorreu no último dia do último FSM, em Dakar, em 2011. Neste dia, Hosni Mubarak foi forçado a abandonar a presidência do Egito. Todos no Fórum aplaudiram. Mas muitos disseram que esse ato em si provava a irrelevância do encontro. Algum dos revolucionários na Tunísia ou no Egito buscou inspiração no evento? Eles ao menos tinham ouvido falar sobre o Fórum Social Mundial?
Meu advogado, Cesar Kloury, me proíbe de discutir especificidades sobre a sentença da Justiça carioca que me condenou a pagar 30 mil reais ao diretor de Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, supostamente por mover contra ele uma “campanha difamatória” em 28 posts do Viomundo, todos ligados a críticas políticas que fiz a Kamel em circunstâncias diretamente relacionadas à campanha presidencial de 2006, quando eu era repórter da Globo.
Viagens espaciais, corridas de automóvel e até mesmo guerras frequentemente têm desdobramentos considerados benéficos para a sociedade, de novos medicamentos a pneus mais resistentes ou combustíveis de maior rendimento. Esses “subprodutos” nem sempre justificam a realização dos eventos – especialmente as guerras – mas contribuem para mitigar (para usar um verbo da moda) os fantásticos custos que demandam. Eles trazem ganhos para um número de pessoas bem maior do que os envolvidos (ou atingidos) de forma direta.